Sentada num local magnífico, poderia sentir-me privilegiada, mas falta qualquer coisa… Depois da semana de trabalho e também de diversão que passou, fico com a terrível sensação de que falta algo. Sou cada vez mais obstinada pelo trabalho, presa por sentimentos intensos, por histórias de vida impressionantes, sinto-me a flutuar na minha de cada vez que deixo os meus “anjos” voarem sozinhos, no fim de cada semana de trabalho com todos eles. Falo de jovens incrivelmente talentosos, de jovens cujos passados (nalguns casos) foram verdadeiramente injustos e terríveis, mas que cada um deles é um exemplo da coragem e força que todos devemos ter, frente a qualquer adversidade desta vida.
Esta foi outra semana fantástica, conheci gente genuinamente meiga, amiga, companheira, gente incrível, posso mesmo dizê-lo…
Fico, normalmente, com uma sensação de dever cumprido, no fim de cada semana, mas para além disso, nesta semana em especial sinto-me a flutuar, não sinto os pés assentes na terra, estou ainda a tentar interiorizar tudo aquilo que vivi e aprendi nesta última semana. Há quem me chame neurótica, dramática, eu diria que sou humana, não passo ao lado quando vejo alguém a sofrer, faço até o que me é permitido eticamente falando e o que não é. Ultrapasso barreiras, excedo os meus limites, estico a corda é verdade, mas não passo ao lado daquilo que julgo não dever passar. Além de monitora, tornei-me amiga, sou até às vezes confidente (não que o faça com esse propósito, mas acontece), é nessa altura que fico a saber histórias de vida impressionantes… Cada um daqueles pequenos adultos transporta consigo um peso grande, vivendo com familiares, em instituições, em colégios, sem terem (tal como eu tenho essa sorte, um pai e uma mãe que cuidem de si…)
Não é injusto?
Talvez tenha chegado a hora de contar um pouco mais da minha história: sou filha de pais separados, somos 3 irmãos, todos inseguros na altura de fazer decisões, não somos unidos entre nós e vivemos separados. Há 7 anos o que era uma família de 5 pessoas desmoronou-se e transformou-se em duas famílias, cerca de 3 anos mais tarde saí de casa e fui estudar para fora, sentindo a partir daí que não pertencia nem a uma nem á outra. Tenho uma sorte danada por ainda ter família e hoje, pensando bem no assunto, vejo isso com muita clareza, a verdade é que tem de haver um acontecimento qualquer ou alguma situação trágica, para que nos apercebamos de algo que sempre ali esteve e nunca vimos ou nunca demos valor. A verdade é que se pensares bem tens algo de muito bom que por e simplesmente, não vias, ou vês… Neste trabalho tenho estado a educar jovens sem pais, sem irmãos, que vivem em instituições, em colégios, ou com um familiar, jovens que não têm quase ninguém neste mundo… Sinto-me estupidamente cega porque tenho tudo isso e por e simplesmente (pela distância que se foi criando, com o passar dos anos…) deixei de dar valor. Termino dizendo que me sinto a flutuar e não a andar, sempre fui muito sensível aos problemas dos outros, este fim-de-semana especialmente não tenho o corpo e a alma em sintonia, o corpo move-se independente de uma alma que ficou algures perto dos meus “anjinhos” de quem me despedi ontem…
Espero que esta reflexão partilhada vos faça pensar, na próxima vez que não estejam a ser justos, pensem em tudo aquilo que têm…
Um abraço apertado como aqueles que recebi dos meus meninos esta semana e dos quais já tenho imensas saudades…
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